Cordel Encantado (2011)
janeiro 05, 2021
O que dá a junção do conto de fadas mais o realismo do sertão? A resposta é simples, uma novela ousada e diferente de tudo que já vimos na teledramaturgia. A trama Cordel Encantado foi assinada pela dupla Thelma Guedes e Duca Rachid, contando com a dirigida de Amora Mautner, junto ao núcleo de Ricardo Waddington.
De acordo com uma entrevista concedida ao site do Gshow, a autora Thelma contou como surgiu a ideia para criar esse grande sucesso do horário da seis.
“Cordel Encantado é um projeto bem antigo de nós duas. Assim que nossa primeira novela saiu do ar (o remake de O Profeta), em 2007, já começamos a pensar no que seria o nosso próximo trabalho. Dentre algumas ideias, surgiu a de escrevermos uma novela que fosse um convite para o telespectador sonhar. Num primeiro momento, a decisão nasceu de uma vontade de oferecer ao público das 18 horas alguns minutos de completo deleite, sonho e fantasia, já que sabemos que é isso o que ele mais busca, quando liga a televisão nesse horário. A escolha de escrever uma trama assim é também um presente que estamos dando para nós mesmas: a oportunidade de darmos vazão às nossas almas de contadoras de história. Me sinto um pouco como aqueles narradores orais, de antigamente, que contavam e recontavam as histórias, na beira do fogo, cercados pela sua tribo. No fundo, é esse o papel e o desejo de todo escritor. Ao nos inserirmos nesse mundo de reis, profetas, princesas e cangaceiros, talvez essa natureza fique mais explícita e viva".
A novela foi inspirada na literatura de cordel, uma forma de contar história em forma de poesia e de rimas. A ambientação foi dividida entre o reino de Seráfia do Norte e a cidade de Brogodó. A arte do cordel tem origem na Idade Média, na Europa, quando quase não havia pessoas alfabetizadas. A literatura de cordel chegou ao Brasil junto com nossos colonizadores, tendo o seu ponto inicial na Bahia para outras regiões do Nordeste. Se tem uma coisa que eu gosto de ouvir nas novelas que são ambientadas no nordeste é o sotaque de alguns personagens. Eu não consigo entender porque existem tantas pessoas preconceituosas que consideram o sotaque nordestino feio ou irritante.
Você tem que ouvir!
A ousadia não para só na trama, mas também na produção da trilha sonora que trouxe um CD com o seu encarte feito com papel reciclável. A seleção de repertório foi assinada por Mariozinho Rocha que selecionou 16 faixas, o mais interessante dessa seleção é ver que a maioria dos músicos são nordestinos. O folhetim também contou com uma trilha instrumental assinada por Eduardo Queiroz, no entanto, essa não foi lançada em CD e está presente em algumas plataformas digitais.
O cantor e compositor Gilberto Gil foi o escolhido para escrever a canção “Minha Princesa Cordel”, a pedido da diretora da trama, Amora Mautner. Segundo Amora, a ideia de convidar Gil para escrever a canção de abertura partiu das autoras.
“O Gil é como meu tio, porque é um dos melhores amigos do meu pai (o compositor Jorge Mautner). Quando estávamos pensando na música, a Duca (Rachid, autora da trama) sugeriu o Gil, mas ela pensou nisso como um sonho. Marcamos um almoço e fizemos o convite. Contamos a história da novela e ele logo se animou”, revelou a autora para site GShow.
Com o convite aceito, Gil levou apenas uma tarde para compor a música que é interpretada por ele e pela cantora Roberta Sá. A faixa contou com os toques típicos do nordeste e trouxe uma letra repleta de poesia inserida na abertura da novela com personagens peculiares dos cordéis que ajudaram a contar de forma resumida um pouco da história, algo muito comum nas tramas mexicanas.
Em uma das faixas temos a oportunidade de ouvir um verdadeiro poema escrito por Haroldo de Campos, em 1965. Os versos foram escritos após o autor fazer uma visita a várias cidades nordestinas, após passar uns tempos na Europa. Quem leu e gostou desse belo poema foi o cantor e compositor Caetano Veloso, que aproveitou para musicar “Circuladô de Fulô”. A música é originalmente de 1991, data de lançamento do álbum Circuladô de Caetano Veloso, considerado por muitos um dos pontos altos das produções do cantor.
Quem também ganhou uma canção na dose certa foi o personagem do Capitão Herculano (Domingos Montagner), o Rei do Sertão. A música selecionada para fazer parte da trilha foi “Candeeiro Encantado”, lançada para homenagear Lampião, o cangaceiro mais famoso do nosso sertão brasileiro. A canção é feita em parceria entre Lenine e Paulo César Pinheiro e está presente no terceiro álbum de estúdio batizado como O Dia em Que Faremos Contato, gravado por Lenine em 1997. Não posso esquecer-me de mencionar que foi por meio desse personagem que Domingos Montagner se tornou conhecido e conquistou diversos trabalhos no qual foi destaque. Infelizmente, ele não está mais entre nós e com certeza o seu talento deixará muitas saudades.
Uma das melhores coisas em uma trilha sonora é poder ouvir novas vozes e composições que só chegaram aos nossos ouvidos graças a uma trilha sonora de novela. Uma das canções mais bonitas é “Quando Assim”, da cantora e compositora pernambucana Núria Mallena, tema dos personagens Rei Augusto (Carmo Dalla Vecchia) e Maria Cesária (Lucy Ramos), que vivem um amor proibido. Aqui está um casal que na minha humilde opinião despertou mais interesse do que o casal de protagonistas. O hit está inserido em seu primeiro CD titulado como Nu, que só chegaria nas lojas no ano seguinte, certamente impulsionado pelo sucesso da canção que foi selecionada para fazer parte da trilha.
Outro artista que se destacou na trilha devido o seu timbre vocal que chega a impressionar é cantor gaúcho Filipe Catto. A música escolhida para ser tema romântico dos personagens de Úrsula (Débora Bloch) e Capitão Herculano foi “Saga”, composição feita por Filipe que foi lançada como EP em 2009, com o sucesso da canção na trama, ele foi convidado pela gravadora Universal Music, onde assinou o seu primeiro contrato, integrando o hit no seu primeiro trabalho do cantor, o CD Fôlego (2011). Em entrevista para o Jô Soares em 2011, ele contou que de início a canção era um samba, depois que ela foi transformada em um tango. No entanto, em outra entrevista para o site Veja S. Paulo, ele comentou o sucesso da canção.
“Saga é aquela música que vou cantar para o resto da vida. Acho que hoje ela nem é mais minha, tem vida própria. E cada vez que eu a canto, ela se modifica. É praticamente um coringa do meu repertório. Ela tem a urgência, o calor e a personalidade do meu ser, por isso a música consegue definir quem é o artista Filipe Catto. É o meu cartão de visitas."
Um clássico não poderia ficar de fora dessa seleção, com certeza “Chão de Giz” é uma das canções mais lembradas de Zé Ramalho, a música descreve o fim de um relacionamento amoroso e está repleta de poesia e algumas metáforas. A faixa foi retirada do seu disco de estreia solo, lançado em 1978. Existem algumas interpretações sobre a origem da canção, alguns dizem que ainda quando jovem, Zé Ramalho viveu um romance proibido com uma dama rica da sociedade paraibana, porém, não encontrei nenhuma fonte segura que essa informação é verdade, porém, se pararmos para pensa, pode ter acontecido, por que não?
“Tum Tum Tum” é uma canção composta por Ary Monteiro e Cristóvão Alencar e já foi gravada por grandes nomes como Jackson do Pandeiro e Elba Ramalho. A escolhida para regravar essa música especialmente para trama foi a baiana Karina Buhr, que deixou o seu sotaque em evidência na canção, o que dá um tempero a mais para esse forró.
“Misturei referências do meu trabalho solo, que faço agora, com coisas que eu fazia na minha antiga banda. Faço uma mistura de ritmos”, mencionou a cantora para o site Gshow.
A seleção não poderia terminar sem Luiz Gonzaga, o famoso Rei do Baião, que contou com ajuda de Miguel Lima para compor a canção “Xamêgo”, que foi adicionada como a primeira faixa do lado A do disco gravado em 1958. A trilha ainda tem outras canções que não mencionei aqui que são muito boas de ouvir, se você não conhece as canções aqui citadas, recomendo que procure por elas e ouça o quanto bonita são cada uma das composições.
Cordel Encantado
01. Minha Princesa Cordel – Gilberto Gil E Roberta Sá
02. Bela Flor – Maria Gadú
03. Quando Assim – Núria Mallena
04. Candeeiro Encantado – Lenine
05. Maracatu Atômico – Chico Science & Nação Zumbi
06. Chão De Giz – Zé Ramalho
07. Saga – Filipe Catto
08. Circuladô De Fulô – Caetano Veloso
09. Tum Tum Tum – Karina Buhr
10. Coração – Monique Kessous
11. Na Primeira Manhã – Alceu Valença
12. Melodia Sentimental – Djavan
13. Estrela Miúda – Maria Bethânia
14. Carcará – Otto
15. Rei José – Silvério Pessoa
16. Xamêgo – Luiz Gonzaga
Vamos para os detalhes do CD:












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