A campeã de audiência na TV brasileira foi Selva de Pedra de 1972

setembro 13, 2022


Qual autor de novelas é capaz de superar os índices de audiência alcançados pela autora Janete Clair? Pensando nos dias atuais, não temos nenhum, isso porque vivemos em uma outra era, onde muitos estão recorrendo aos conteúdos dos streamings. Voltando para novela do mês, a trama tratada aqui hoje é da maior autora que nossa televisão já teve, estou falando de Janete Clair, que após o sucesso de Irmãos Coragem (1970), levou ao ar Selva de Pedra, em 1972.

Em 1973, Janete Clair abriu a sua casa para o jornalista Lúcio Rito, em entrevista às páginas amarelas da revista Veja, para falar do seu grande sucesso e como foi o processo de criação da trama.

“Da vida, dos jornais, dos dramas que as pessoas contam. A história de Cristiano tirei de uma notícia de um rapaz que tocava bumbo numa praça, no interior de Pernambuco. Ele foi ridicularizado por um outro rapaz e de noite foi tomar satisfações e o matou. A história surgiu daí, e só então é que notamos que a temática era semelhante à da Tragédia Americana (do escritor Theodore Dreiser, 1925), apesar de a história da novela em sai não ter nada a ver com o romance”. – Janete Clair.

Na trama, Simone (Regina Duarte) é uma artista plástica que testemunha uma briga entre Cristiano (Franscico Cuoco) com um outro rapaz. Na desavença, por acidente, o jovem acaba sendo vítima de sua própria arma, morrendo na sequência. Ciente da inocência de Cristiano, a mocinha encoberta o caso e se apaixona por ele. Os dois acabam se casando e deixam o interior, passando a viver na capital, Rio de Janeiro.

Em sua obra O livro do Boni, o ex-todo poderoso da Globo contou como foi a escola dos protagonistas desse grande sucesso que marcou história a nossa teledramaturgia.

“Para Selva de pedra, cujo título, por acaso, é meu, o Daniel sugeriu uma nova dupla: Regina Duarte e Francisco Cuoco. Eu já havia trabalhado com o Cuoco em outras emissoras, como na novela Renúncia (1964) e em outros projetos, e sempre tive por ele o maior respeito e muita admiração pessoal e profissional. A Regina e o Cuoco se entregaram tanto aos personagens que tudo parecia tão real”.


Nesta "selva de pedra", Cristiano desperta a paixão da milionária Fernanda (Dina Sfat). Aos poucos o rapaz vai sendo seduzido pelo poder e o dinheiro, colocando em risco o seu casamento com Simone. No decorrer da trama Miro (Carlos Vereza), vê Simone como um obstáculo para o crescimento de Cristiano e até mesmo o dele, diante dessa situação ele propõe eliminar a jovem, mas Cristiano recusa e ele para se vingar, envia para o estúdio dela uma carta endereçada ao amigo, na qual afirma que Cristiano pretende matar a própria esposa. Após ler a carta, ela acredita que o seu marido está tramando a sua morte e decide fugir.

No entanto, durante a fuga, Simone sofre um grave acidente de carro enquanto é perseguida por Miro. Ela é dada como morta e desci sair do Brasil, retornando um ano depois como a consagrada artista plástica Rosana Reis, em busca de vingança.

Em entrevista para revista Amiga de novembro de 1975, a atriz Dina Sfat, falou sobre a sua personagem a importância de dar vida para Fernanda.

“Fernanda foi um de meus melhores trabalhos na televisão. Personagem que começou tímida, ganhou grande vulto a partir de determinado momento da novela. Selva foi uma história difícil, extenuante, cansativa, porque exigiu de seus intérpretes toda uma entrega artística-emocional sem o que não poderia ter chegado àquele resultado”. – Dina Sfat.


Censura barra cena

Em um determinando momento da trama, o texto de Janete sofreu com a censura, fazendo com que a autora reescrevesse alguns capítulos. Acreditando que a sua mulher está morta, Cristiano decide se casar novamente com Fernanda, no entanto, o personagem foi considerado bígamo pela censura, caso viesse a se casar novamente, mesmo ele não sabendo que Simone está viva.

Em entrevista ao UOL, em 2013, Boni, ex- superintendente de produção e programação da Globo, contou os dribles que ele, a autora e o diretor tiveram que dar na censura para que a novela não mudasse de horário nem fosse interrompida.

"Quando os argumentos falhavam, tínhamos que executar as mudanças necessárias para não sair do horário. O custo das regravações era extremamente inferior do que jogar fora audiência do horário e perder as verbas publicitárias. Muitas vezes as alterações obrigavam os autores a um exercício de criatividade que assustava por ter virado rotina. Em Selva de Pedra, as soluções foram discutidas comigo pela Janete Clair e o Daniel Filho". – Boni.

No final, Janete teve que reescrever 22 capítulos e decidiu dar um novo rumo para sua história. A solução para o enredo foi que Cristiano abandonar Fernanda no altar, perturbado pela culpa de ter causado a morte da esposa, mesmo que indiretamente. Esse acontecimento, acaba desencadeando uma nova trama de vingança, agora por parte da vilã Fernanda, que se mostra cada dia mais louca de pedra.


Marca histórica de ibope

Na noite do dia 4 de outubro de 1972, no capítulo 152, Simone (Regina Duarte) foi desmascarada pelo marido, Cristiano (Francisco Cuoco), acusada de assumir a identidade da sua irmã, Rosana Reis, falecida na infância. Nesse dia, no Rio de Janeiro, de cada cem casas, 77 casas viram o capítulo 152 de Selva de Pedra; as outras 23 estavam com o televisor desligado, totalizando 100% dos televisores ligados. Um feito, até então, inédito no Brasil.

Por meio das famosas páginas amarelas da edição de 1973 da revista Veja, a autora comentou sobre ter alcançado o número máximo na audiência.

“Os 100% de Ibope aumentaram muito minha responsabilidade. Minha sensação é de medo. E muita humildade. De repente, vejo meu trabalho crescer, tornar-se gigante, e eu me sinto pequena, e surpresa: pela primeira vez a repercussão de uma novela foi inesperada para mim. Selva de Pedra atingiu todas as camadas sociais. Minha empregada vê, minhas amigas, advogados, médicos. Outro dia, fui à inauguração do Teatro Bloch e não sabia mais o que dizer às pessoas. Até o ex-presidente Juscelino Kubitschek mostrou que era meu fã e muito aflito chegou para Regina Duarte e disse: ‘Minha filha, não aguento mais ver você sofrendo naquela casa. Quando é que isso vai terminar?’. quer dizer, é uma coisa que me chocou muito. Foi meu maior sucesso até agora”. – Janete Clair.


Mais Curiosidades

  • Um compacto com 76 capítulos de Selva de Pedra foi ao ar entre agosto e novembro de 1975, para substituir às pressas a primeira versão de Roque Santeiro, vetada pela Censura.
  • O principal par romântico de Selva de Pedra fez enorme sucesso. Em novembro de 1972, Francisco Cuoco e Regina Duarte foram eleitos os Reis da Televisão pelos leitores da revista Amiga, veículo especializado na cobertura de TV. A publicação promoveu a eleição em parceria com o Programa Silvio Santos, que era, na época, exibido na TV Globo.
  • Francisco Cuoco fazia seu primeiro protagonista em uma novela do horário nobre. Ele contou que construiu o personagem inspirado em rapazes que conheceu durante sua infância no Brás, bairro operário de São Paulo.
  • A novela de Janete Clair foi o primeiro trabalho dos atores Kadu Moliterno e Glória Pires com apenas 9 anos na Globo. Atriz-mirim era creditada como Glória Maria na abertura. Já Kadu contou que fazia teatro no Rio quando bateu à porta da casa da autora para pedir uma chance.


  • Por seus trabalhos em Selva de Pedra, Walter Avancini e Dina Sfat foram eleitos pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) o melhor diretor de novelas e a melhor atriz do ano de 1972.
  • O sucesso da personagem de Regina Duarte em Selva de Pedra gerou no Brasil um boom de crianças batizadas de Simone.
  • De acordo com matéria publicada na revista Veja São Paulo (28/08/2017), mais de 150 mil meninas receberam o nome de Simone, em 1972, enquanto que, na década anterior inteira (de 1960), não haviam sido registradas nem 30 mil Simones em todo o território nacional. Será que é coincidência? Acho que não!
  • Em 1986, a Globo chegou a realizar um remake da novela, escrito por Regina Braga e Eloy Araújo. A nova versão, apesar de ter feito sucesso, não conseguiu repetir o fenômeno da primeira edição.
  • A trilha sonora internacional, Também foi um destaque a parte e contou com uma das mais belas até hoje, com o clássico “Rock and Roll Lullaby” como tema de Cuoco e Regina, e ainda interpretações do jovem Michael Jackson e da francesa Françoise Hardy. Saiba mais sobre a trilha internacional clicando aqui.



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