
Uma coisa é certa nas novelas, elas são obras abertas e tudo pode mudar dependendo da resposta que venha do público que pode aplaudir ou rejeitar o que está sendo mostrado e quando a rejeição vem, o autor e todos os envolvidos precisam ter jogo de cintura para reverter a situação e fisgar aqueles que estão torcendo o nariz. Um bom exemplo envolvendo essa situação é O Dono do Mundo, trama escrita por Gilberto Braga.
“Foi uma confusão danada. O Dono do Mundo eu acho a primeira semana a melhor coisa que eu já fiz na vida. Muito forte, embora totalmente errada como novela de televisão. Porque era muito cruel e penosa para o pobre ver. Pobre levando porrada e não tendo como se defender. A audiência começou a cair e eu tive que mudar tudo”, contou o autor ao site Memória Globo.
Tudo começa quando Felipe Barreto (Antônio Fagundes) faz uma aposta com o seu fiel escudeiro, que levará para a cama a noiva virgem, Márcia (Malu Mader), antes do marido. Ele começa a pôr seu plano em ação e patrocina a lua de mel do casal, aos poucos ele vai conseguindo seduzir a jovem.
No dia que Barreto consegue concretizar o que tanto deseja não foi ele que foi atrás da mocinha e sim ela que bateu na porta do quarto dele. Essa foi uma cena crucial pra que o público rejeitasse a mocinha e aplaudisse o vilão, gerando um grande problema para a produção que viu o Ibope caindo.
“Então, quando o noivo dela se mata, eu tinha uma heroína que o público não gostava e um vilão que o público admirava”, concluiu Gilberto Braga.
Com o problema já inserido, foi preciso pensar rápido e o autor decidiu fazer com que o vilão entrasse em decadência, pendendo tudo que tinha e se redimindo por tudo que ele tinha feito com Márcia, se apaixonando de “verdade” por ela. Contudo, para surpresa de muitos, o público descobre que tudo faz parte de mais um plano do vilão. No entanto, quando chegou nessa fase, a audiência já tinha sido conquistada novamente.
Sempre que sabemos que teremos uma trama escrita por Gilberto Braga, já podemos esperar por alguns clássicos da nossa música popular brasileira inserida nela. Que tal conhecermos um pouco mais sobre essa seleção feita por Mariozinho Rocha, que com certeza recebeu algumas indicações do autor que sempre se envolve nas trilhas de suas tramas. Ao todos foram selecionadas 15 canções. Quem pensou que quem ganharia a capa seria a protagonista feita por Malu Mader ou até mesmo o vilão feito por Antônio Fagundes, foi surpreendido ao ver Glória Pires estampada na trilha nacional de O Dono do Mundo.
Você tem que ouvir!
Assim que a agulha toca o vinil, a primeira canção que ouvimos é “Querida”, faixa essa que foi feita especialmente para trama que foi inserida na abertura que vou comentar aqui, pois vale muito apena saber como ela foi feita, pois ficou sensacional, ou seja, o casamento perfeito. Após sucesso da composição inserida na trama de Gilberto Braga, Tom Jobim decidiu inserir a canção em seu último álbum Antônio Brasileiro, lançado em 1994.
Em entrevista concedida para revista Ideias em 2017, o cantor Danilo Caymmi que na época estava fazendo uma homenagem para o amigo, com o lançamento do seu disco titulado como Danilo Caymmi canta Tom Jobim. A canção “Querida” que está presente como a 10º faixa do seu álbum.
“‘Querida’, por exemplo, eu vi o Tom compor, ele estava doente, um ano antes já sabia que tinha câncer e não terminava a letra nunca. Era para abertura de uma novela e com a corda no pescoço por conta do prazo, eu e minha mulher cantamos uns trechos no telefone para o Boni ouvir. E a letra fala de finitude, e ele não terminava”, relembrou o cantor.
Com a canção tema da abertura pronta, o designer Hans Donner e Boni se uniram para pensar em personagens históricos que pudessem ilustrar o personagem de Antônio Fagundes, alguns nomes foram mencionados, como por exemplo, Stalin, Hitler e Cassius Clay. No entanto, o escolhido foi Hitler, após Donner se lembrar do filme O Grande Ditador (1940), no qual Chaplin protagonizava Adenoid Hynkel.
Hans Donner deu a ideia de usar a cena original e a inclusão de imagens de mulheres dentro do globo foi decisão do Boni. Contudo, o maior desafio foi conseguir os direitos de exibição de uma obra de Charlie Chaplin. Diante desse desafio, Hans ligou para Londres e falou diretamente com executivo de cinema Mo Rothman, responsável na época pelos direitos das obras de Chaplin. Após muitas conversas e negociação de valores, foi liberado os direitos.
“Muita gente poderá nos criticar por causa do dinheiro gasto. Mas esta abertura, somadas todas as exibições, vai ficar dez horas no ar. E ela é o cartão de visitas da novela, uma amostra indiscutível do padrão Globo de qualidade”, declarou Hans em entrevista concedida ao jornal O Globo, em 1991.
Dando continuidade na seleção musical, somos agraciados com a canção “Eu Sei (Na Mira)”, de Marisa Monte. Essa canção foi tema de Yara, personagem interpretada por Daniela Perez que se destacava no núcleo jovem. O hit é uma composição feita pela própria cantora e foi retirada do segundo álbum de estúdio que foi batizado como Mais, gravado entre setembro a novembro de 1990, disco esse que foi muito bem aceito pela crítica como podemos conferir uma delas que foi publicada no Jornal O Estadão, na época do lançamento do álbum.
“Menos dramática, com a voz ainda mais afinada e cristalina, o que parecia impossível, Marisa chega a comover. E, definitivamente, ingressa no panteão dos titãs, em todos os sentidos.”
“Codinome Beija-Flor” é um grande clássico do primeiro disco solo de Cazuza, lançado em 1985. Na trilha temos o prazer de ouvir a versão feita por Luiz Melodia, tornando-se uma das mais lembradas da trama de Gilberto Braga.
“A canção foi escrita em 1985, nessa época Cazuza ainda fazia parte do grupo Barão Vermelho e estava de cama, internado em um hospital do Rio de Janeiro. As festas eram diárias na suíte de São Lucas. Amigos entrando e saindo. Zeca sempre ali, inclusive quando os beija-flores que voavam pelos jardins do hospital inspiraram meu filho a criar uma de suas mais delicadas e belas canções: Codinome Beija-Flor. Colocamos água com açúcar nos recipientes próprios para que os passarinhos exibissem seu bailado encantador na janela. Zeca e Cazuza fizeram juntos a letra e deram para Ronaldo Arias musicar Codinome Beija-Flor”, contou Lucinha Araújo para o livro Cazuza: Só As Mães São Felizes.
Aproveitando que estamos falando do Cazuza, temos uma outra canção inserida na trama chamada “Amor Quente”, que nasceu de um poema até então inédito de Cazuza que foi musicado por Renato Ladeira, a pedido de Gilberto Braga. A composição ganhou a voz da cantora baiana Lela Badaró e serviu como tema do personagem Umberto (Marcelo Serrado).
“Cidade Maravilhosa”, foi composta em 1934 por André Filho. Nessa época, o jovem compositor criou uma marcha em homenagem ao Rio de Janeiro.
“No início da década de 1930, o Rio era embelezado com a estátua do Cristo Redentor e a modernização de vários trechos da cidade, criando maiores condições para deixar o turista maravilhado. Foi nesta ocasião que, motivado por uma promoção chamada Festa da Mocidade, em que se elegia a Rainha da Primavera, André Filho compôs ‘Cidade Maravilhosa’. O título reproduzia uma expressão consagrada pelo escritor Coelho Neto”, como contam Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello no primeiro volume do livro A Canção no Tempo.
O autor da canção escolheu sua amiga Aurora Miranda – irmã de Carmem Miranda – então com 19 anos e já uma estrela do rádio e do disco, para gravá-la. 26 anos depois, tornou-se a “marcha oficial da Cidade do Rio de Janeiro”, através da Lei nº 5, de 5 de maio de 1960, proposta pelo vereador Salles Neto e promulgada pelo governador Carlos Lacerda uma lei transformou a canção de André Filho em hino do Rio de Janeiro, na época, Estado da Guanabara. Como você pode ver, essa canção tem história que tentei resumir ao máximo possível aqui, porém, tem muitas outras coisas envolvendo essa marcha-hino que foi regravada por ninguém nada menos que Caetano Veloso, que fez uma excelente releitura dessa música.
Ainda no lado A, temos uma das canções mais bonitas de toda seleção composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos que foi lançava o seu 30º álbum de estúdio, lançado em 1990 e foi desse disco que foi retirada a canção “Super-Herói”, que serviu de tema para o personagem Rodolfo, interpretado por Kadu Moliterno.
O lado B já começa com a canção “Solidão”, composta por Alcides Fernandes com Tom Jobim em 1954. A história dessa parceria é bem curiosa, pois Alcides era marido de Silvia, uma diarista que prestava serviços para Tom. Por várias vezes o maestro subia ao morro onde Alcides morava e lá ficava por horas conversando e compondo com o amigo. Em 1991, a canção ganhou uma nova interpretação feita Gal Costa, especialmente para a protagonista Márcia.
Em 1991, a cantora e compositora Marina Lima, lançou o seu 10º álbum de estúdio, primeiro que víamos o seu nome por inteiro. A canção selecionada do disco foi “Acontecimentos”, que marcou mais uma vez a parceria com o seu irmão Antônio Cícero.
“Tornei-me letrista quando minha irmã, Marina, que é dez anos mais moça do que eu, pôs música num poema que eu havia escrito. Depois disso, invertemos o processo: eu passei a escrever letras para as músicas que ela compunha”, revelou o compositor para ao site Carta Capital em fevereiro de 2020.
Como você acabou de ver, tivemos ótimas canções inseridas nessa trilha que trouxe Glória Pires estampando a sua segunda capa. Confesso que gostei mais da contracapa do que da capa em si e você?
Nacional
Lado A
01. Querida – Tom Jobim (Tema de Abertura)
02. Eu Sei (Na Mira) – Marisa Monte
03. Codinome Beija-Flor – Luiz Melodia
04. Una Mujer – João Gilberto
05. Cidade Maravilhosa – Caetano Veloso
06. Super-Herói – Roberto Carlos
07. Dono do Mundo – Nova Era
08. Amor Quente – Leda Badaró
Lado B
01. Solidão – Gal Costa
02. Sábios Costumam Mentir – João Bosco
03. Acontecimentos – Marina Lima
04. Logrador – Orlando Morais
05. Serena – Nova Era
06. Coração de Gelo – Edmon
07. Rap da Rapa (Enquanto Isso, Em Algum Lugar…) – Ademir Lemos
Vamos para os detalhes do CD:
Vamos para os detalhes do LP:
- fevereiro 03, 2021
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